PL em Mato Grosso busca unidade, mas desafio vai além da convenção

PL em Mato Grosso busca unidade, mas desafio vai além da convenção
Publicado em 15/07/2026 às 8:45

Por Clemerson Mendes 

A poucas semanas das convenções partidárias, o Partido Liberal de Mato Grosso se vê diante de um desafio que vai muito além da definição de uma candidatura ao Governo do Estado. A principal dificuldade da legenda parece ser outra: convencer seus próprios prefeitos a abraçarem, de forma pública e espontânea, o projeto político do senador Wellington Fagundes.

O cenário chama a atenção porque a resistência parte justamente de alguns dos maiores colégios eleitorais do Estado. Em Cuiabá, o prefeito Abilio Brunini tem defendido uma composição que aproximaria o PL da chapa do governador Otaviano Pivetta. Em Várzea Grande, Flávia Moretti tem evitado declarar apoio antecipado a Wellington e afirma que aguardará as convenções, enquanto mantém diálogo político com o atual governador. Já em Rondonópolis, Cláudio Ferreira declarou preferência por Pivetta, movimento que provocou reação da direção estadual do partido. O mesmo caminho foi seguido pelo prefeito de Primavera do Leste, Sérgio Machnic, que também manifestou apoio ao governador.

A decisão do diretório estadual do PL de exigir a presença de todos os prefeitos na convenção do partido vai muito além da organização de um evento político. O gesto busca transmitir uma imagem de unidade em torno da candidatura de Wellington Fagundes e funciona como um recado claro às lideranças que vêm demonstrando simpatia pelo projeto de reeleição de Otaviano Pivetta. Mas a pergunta inevitável é: uma presença obrigatória em um ato partidário será suficiente para transformar prefeitos que já externaram publicamente outras preferências em cabos eleitorais efetivos do candidato do próprio partido?

A convenção pode produzir fotografias de união, discursos de fidelidade e demonstrações de força política. Porém, campanha eleitoral se constrói nas ruas, nos municípios e no empenho diário das lideranças. Se parte dos principais prefeitos do PL continuar adotando uma postura discreta — ou até favorável a outro candidato —, a exigência de comparecimento corre o risco de se tornar apenas um gesto protocolar, uma demonstração de unidade “para inglês ver”. Afinal, mais importante do que estar presente no palco da convenção será descobrir quem realmente estará no palanque de Wellington Fagundes durante toda a campanha.

Diante desse quadro, surge uma pergunta inevitável: quando os principais prefeitos da legenda demonstram preferência por um candidato de outro partido, a mensagem transmitida ao eleitor é de unidade ou de divisão?

É justamente por isso que a convocação das lideranças para a convenção estadual ganhou um peso simbólico muito maior do que o protocolo partidário. A direção estadual quer reunir prefeitos, deputados, vereadores e demais lideranças em um mesmo palco para demonstrar coesão e reforçar que Wellington Fagundes é o candidato oficial da legenda. A expectativa é que a convenção funcione também como um recado interno de que o partido espera alinhamento de seus filiados.

Mas até que ponto uma fotografia de unidade durante a convenção consegue apagar meses de declarações públicas em sentido contrário?

Essa talvez seja a principal dúvida. Porque o eleitor acompanha não apenas os atos partidários, mas também as manifestações individuais de cada liderança. E, até aqui, algumas delas foram bastante claras ao sinalizar simpatia pelo projeto de reeleição de Otaviano Pivetta. Reverter essa percepção pode ser mais difícil do que simplesmente reunir todos em um auditório.

Há ainda outro aspecto que merece reflexão. A fidelidade partidária costuma ser cobrada quando um partido possui candidatura própria. Nesse contexto, é natural que a direção espere de seus filiados, apoio ao projeto definido pela legenda. Ao mesmo tempo, prefeitos administram municípios que dependem de uma relação institucional permanente com o Governo do Estado. Até que ponto essa necessidade administrativa influencia as escolhas políticas? E onde termina o pragmatismo da gestão e começa o compromisso partidário?

O presidente estadual do PL, Ananias Filho, elevou o tom ao afirmar que a legenda não aceitará “traição” e chegou a mencionar a possibilidade de cobrar alinhamento ou até a saída de filiados que insistirem em apoiar adversários após a convenção.

Ainda assim, permanece uma última indagação: é possível impor fidelidade por meio de uma decisão partidária quando as preferências políticas já foram externadas publicamente? A convenção pode oficializar candidaturas e produzir imagens de unidade, mas dificilmente muda, por si só, convicções políticas que vêm sendo construídas ao longo dos últimos meses.

No fim das contas, a convenção do PL poderá responder duas perguntas distintas. A primeira é quem será, oficialmente, o candidato da legenda ao Governo de Mato Grosso. A segunda, talvez mais importante, é se o partido conseguirá transformar uma unidade formal em apoio efetivo nas ruas, nos palanques e, principalmente, nas urnas.