Prefeitos disseram não estar seguros para assumir Hospital Regional antes de contrato de R$ 321,8 milhões, mostra ata Publicado em 05/06/2026 às 8:11 Fonte: Daniel Trindade (foto: assessoria/arquivo)Uma ata oficial do Consórcio Público de Saúde Vale do Teles Pires revela que os prefeitos integrantes da entidade manifestaram insegurança para assumir a gestão do Hospital Regional de Sinop pouco mais de dois anos antes da assinatura do contrato de R$ 321,8 milhões que transferiu a administração da unidade ao próprio consórcio.O documento foi produzido durante Assembleia Geral realizada em 2 de fevereiro de 2024, quando o tema já era discutido internamente pelos gestores municipais que compõem a entidade.Na ocasião, após a apresentação de informações sobre o Hospital Regional Jorge de Abreu, os prefeitos registraram preocupação com a possibilidade de assumir a administração da unidade.Segundo a ata, os gestores avaliaram que ainda não possuíam segurança para tomar a decisão.O documento registra que “os prefeitos colocaram que ainda não estão seguros para essa tomada de decisão e que trazer essa responsabilidade para o Consórcio pode também trazer muita complicação”.A manifestação chama atenção porque partiu dos próprios integrantes do colegiado que, pouco mais de dois anos depois, passaria a administrar a principal unidade hospitalar do Norte de Mato Grosso.O Hospital Regional de Sinop é referência para 36 municípios da região e atende pacientes de média e alta complexidade de todo o Nortão.A ata demonstra que, naquele momento, o entendimento dos gestores era de cautela diante da dimensão da responsabilidade envolvida.Ao final da reunião, o consórcio decidiu não assumir a gestão do hospital naquele momento.O documento também registra autorização para que fosse realizada uma reunião com o então vice-governador Otaviano Pivetta para discutir o tema e avaliar possíveis encaminhamentos.A análise da documentação revela que a discussão sobre o Hospital Regional não terminou com a decisão registrada na ata.No mesmo período em que os prefeitos manifestavam insegurança para assumir a unidade, o consórcio promovia mudanças em sua própria estrutura jurídica.Também em fevereiro de 2024 foi aprovada a Terceira Alteração Estatutária da entidade.A mudança ampliou formalmente as competências do consórcio e passou a prever expressamente novas possibilidades de atuação na área da saúde, incluindo a prestação de serviços públicos em regime de gestão associada com o Estado de Mato Grosso.Meses depois, em dezembro de 2024, uma nova alteração do Protocolo de Intenções consolidou e ampliou atribuições relacionadas à gestão de serviços públicos de saúde, administração de estruturas hospitalares, celebração de contratos de gestão e execução de atividades assistenciais.As mudanças criaram uma base institucional mais ampla para que o consórcio pudesse atuar em operações de maior porte dentro da rede estadual de saúde.A sequência dos documentos chama atenção.Primeiro, os prefeitos registram oficialmente que não se sentiam seguros para assumir a gestão do hospital.Depois, o consórcio amplia suas competências estatutárias.Em seguida, promove alterações em seu protocolo de intenções relacionadas à gestão hospitalar.Por fim, celebra com o Governo de Mato Grosso o Contrato de Gestão Especial nº 001/2026/SES-MT.O contrato possui valor global de R$ 321.805.858,74 e vigência de 36 meses.A transferência da gestão do Hospital Regional Jorge de Abreu representa uma das maiores mudanças recentes na estrutura da saúde pública do Norte de Mato Grosso.A unidade permanece como referência regional para dezenas de municípios e desempenha papel estratégico na rede estadual de atendimento.Os documentos analisados pela reportagem não apontam irregularidade nas alterações estatutárias ou na ampliação das competências do consórcio.No entanto, a cronologia dos fatos levanta uma questão relevante para o debate público: o que mudou entre fevereiro de 2024, quando os prefeitos afirmaram não possuir segurança para assumir a gestão do hospital, e a assinatura do contrato de R$ 321,8 milhões formalizada em 2026?A resposta envolve não apenas a evolução institucional do consórcio, mas também os estudos técnicos, análises operacionais, pareceres jurídicos e critérios adotados para justificar a transferência da gestão de uma das mais importantes unidades hospitalares do interior de Mato Grosso.O tema ganhou ainda mais relevância porque a contratação também passou a ser alvo de questionamentos judiciais e de análise pelo Tribunal de Contas do Estado, que solicitou esclarecimentos à Secretaria de Estado de Saúde sobre os fundamentos da operação.Enquanto os órgãos de controle analisam a transferência da gestão, a ata de fevereiro de 2024 permanece como um registro oficial de que os próprios prefeitos integrantes do consórcio manifestaram dúvidas sobre a capacidade da entidade para assumir o Hospital Regional de Sinop naquele momento. Pouco mais de dois anos depois, o mesmo consórcio passou a administrar a unidade por meio de um contrato de R$ 321,8 milhões firmado com o Governo de Mato Grosso.