Relatório aponta falhas graves e recomenda desativação da UHE Colíder Publicado em 16/09/2025 às 9:40 Fonte: Redação Pauta Livre MT (foto: assessoria/arquivo)O relatório elaborado pelo Ministério Público de Mato Grosso, por meio do Centro de Apoio Técnico à Execução Ambiental (CAEx Ambiental), identificou riscos estruturais e impactos ambientais significativos que colocam em xeque a continuidade da operação da Usina Hidrelétrica (UHE) Colíder, localizada no rio Teles Pires, que foi inaugurada em 2019 com potência instalada de 300 MW.Durante vistoria realizada entre 22 e 27 do mês passado, técnicos constataram falhas críticas no sistema de drenagem da barragem. Dos 70 drenos avaliados, 14 não possuem piezômetros e 55 estão sem peneiras para análise de turbidez, dificultando o monitoramento da pressão interna e da presença de sedimentos. Além disso, 18 apresentaram carreamento de materiais, cinco romperam e três foram tamponados por segurança. O conjunto de problemas evidencia o avanço da erosão interna (piping), considerada um dos principais mecanismos de falha em barragens de terra e enrocamento.Como medida emergencial, a Eletrobras iniciou o rebaixamento do reservatório em agosto, mas a ação já provocou impactos ambientais severos. Foram resgatados mais de 22 mil peixes, enquanto outros 1.541 foram encontrados mortos, totalizando 212 quilos de biomassa perdida. Espécies como carás, tuviras, mussuns e lambaris estavam em decomposição em poças isoladas, com baixa oxigenação e altas temperaturas.O relatório também aponta que a vegetação não suprimida no leito do reservatório — autorizada pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), em desacordo com pareceres técnicos e normas da Agência Nacional de Águas (ANA) — agravou a deterioração da qualidade da água. Análises mostraram níveis críticos de oxigênio dissolvido, chegando a menos de 2 mg/L em alguns pontos, condição de estresse ecológico.Os impactos acumulados são expressivos: entre 2014 e 2020, foram registradas seis mortandades de peixes diretamente ligadas à operação da UHE Colíder e de outras usinas do Complexo Teles Pires. Só em 2014, mais de 50 toneladas de peixes morreram na instalação da barragem. O prejuízo total supera 89 toneladas de biomassa.Para a doutora em Ecologia, Luciana Ferraz, membro do Conselho Estadual de Pesca, o impacto vai além do ambiental: “Os peixes mortos poderiam ter sido utilizados como pescado na alimentação humana. Foram 89 toneladas de biomassa perdidas, suficientes para alimentar 2.687 pessoas durante seis anos.”O relatório também destaca reflexos econômicos, como cancelamentos em empreendimentos turísticos e pesqueiros, e riscos à segurança da população: a Zona de Autossalvamento (ZAS), que deveria ser evacuada em emergências, possui 181 edificações, mas 131 estavam ausentes durante a vistoria. O sistema de alerta sonoro, baseado apenas em sirenes móveis, foi classificado como frágil.Diante da gravidade, o parecer técnico recomenda a avaliação de desativação ou descaracterização da UHE Colíder, conforme prevê a Política Nacional de Segurança de Barragens (Lei nº 12.334/2010).A perícia foi conduzida pela bióloga Mayara Fioreze Zucchetto, pelo geólogo Edvaldo José de Oliveira e pelo engenheiro civil Bruno Moreira dos Santos Zuchini. O procurador de Justiça Gerson Barbosa, coordenador do CAEx Ambiental, enfatizou a importância do relatório:“Conseguimos identificar com precisão os riscos estruturais e os impactos ambientais. É um documento robusto, que orienta decisões estratégicas e reforça a necessidade de medidas urgentes.”O processo está sob acompanhamento contínuo do MPMT, envolvendo a 11ª Procuradoria de Justiça e as promotorias de Colíder, Nova Canaã do Norte, Itaúba e Cláudia. Para a promotora Graziella Salina Ferrari, de Colíder, a atuação integrada é fundamental:“Estamos acompanhando cada etapa com rigor técnico e compromisso institucional, assegurando que os riscos sejam mitigados e os direitos das comunidades respeitados.”Com a sucessão de falhas, impactos ambientais recorrentes e a falta de segurança no entorno, a recomendação de desativação da UHE Colíder deixa de ser hipótese distante para se tornar uma medida plausível e necessária.